quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Resiliência?


                              O céu parecia uma aquarela um tanto quanto sinistra. Matizes de azul escuro, cinza e roxo deixavam a atmosfera ainda mais pesada. Uma chuva forte se aproximava da cidade. Raios cortavam o céu, agora enegrecido.
                               Ali, parado estava ele. Maltrapilho, magro, sujo, com seus 70 anos. Escorado com a mão direita no portão da bem ornada residência, na mão esquerda uma garrafa de cachaça. Da mais barata. Falava palavras desconexas. Frases sem sentido para quem o ouvisse, mas na sua cabeça, ele lembrava os tempos idos, os amores perdidos, a família que o abandonou, a riqueza, os amigos que ficaram pelo caminho.
                               Só consegue sentir pena de si mesmo. Nem forças para se revoltar têm mais. Tanto mental quanto fisicamente. Mais um dia sem forrar o estômago. Mais um dia de dor. Mais um dia perdido na sua pobre e triste existência. Queria estar morto há tempos. Nada mais tinha a perder. Vários de seus amigos optaram pelo que entendiam ser mais fácil e menos indolor. Nem coragem para isso tinha. Havia se tornado um pária. Um peso morto. Um nada.
                               Ao seu lado, o único companheiro que restou. Um cachorro preto e grande. Tão sujo, magro e maltrapilho, quanto ele. Nem lembra quanto tempo estão juntos. Quantos invernos e quantos verões juntos. Tição, esse o nome do cusco, estava com ele desde pequeno. A fome e a merda de vida os uniram. Uma junção sincera, doída e por mais incrível que pareça, pura.
                               Sabe que não tem mais nada. Mais ninguém. Tudo que um dia amealhou, seja material ou não, inexistem hoje. Se ao menos tivesse um teto, mas nem isso. Vive das esmolas. Dos restos. Do que lhe alcançam com olhares de compaixão e repulsa. Ele sente esses olhares que o penetram como lanças pontudas. Sente-se invariavelmente menor que seu fiel companheiro. Esse, pelo menos ganha seu alimento sem entender o asco e o nojo dos homens.
                             Nos poucos momentos de lucidez que ainda tem, fragmentos desconexos de lembranças enchem sua cabeça. Sentado no meio-fio, imagens fazem seus olhos se encherem de lágrimas... A bancada das ferramentas. Todas organizadas. Um quintal. Gramado verdejante. Árvores frondosas. Risos. Balbúrdia. Gritaria. Os convites da filha para brincar. A garagem de madeira. Grande. Envernizada. A varanda. Rede. Cadeiras. E ela. Sorrindo, lhe chamando para o almoço. Linda. Olhos amendoados. Cabelos soltos. Negros. Curtos. O avental branco. Maria. Quase certeza que esse era o nome.
                         As lágrimas agora lhe encharcam o rosto. Escorrem pelo pescoço, pingam em seu sapato rasgado. As mãos seguram a cabeça. Os cotovelos apoiados nos joelhos esquálidos. Minutos se passam. A chuva bondosa lava seu rosto. Seu corpo. Sua alma. Tição, que via tudo deitado na sua frente, levanta, sai debaixo do carro. Se chacoalha vigorosamente. Retira boa parte da água de seus pelos. Anda pesadamente em direção ao seu amigo. Olha-o enternecido. Mexe o rabo quase como uma hélice quebrada de um ventilador. Desajeitado. Lambe a fronte de Zé. Rápido. Uma. Duas. Três vezes. Late como se avisasse seu companheiro que a chuva havia ido embora. O latido sai débil. Quase inaudível. Um lamento.
                          O homem levanta a cabeça. Devagar. Os olhos semicerrados. O brilho incipiente dos raios de sol, rasgando aos poucos as nuvens pesadas, toca seu rosto sutilmente. As mãos espalmadas sobre as canelas molhadas. Tenta se erguer flexionando os joelhos. Não consegue, Falta-lhe força no corpo desnutrido. Lentamente inclina seu corpo para trás. Apóia os dorsos das mãos no chão. Uma de cada lado. Afirma a planta do pé direito na calçada e vira a perna para o lado de fora, usando o joelho como uma precária alavanca. Sente seus ossos estralarem como dobradiças enferrujadas. Levanta-se.
                      A cabeça dói. As mãos doem. Esfrega os olhos. Passa a mão nos cabelos brancos. Um suspiro vem do fundo do seu peito. Abaixa-se, pega a cachaça caída aos pés do cachorro. Afaga-o com carinho, delicadamente. Outro latido. Agora mais forte. É hora de ir embora. Ir para “casa”, seja lá onde ela for. A caminhada é longa. Os dois seguem cabisbaixos, lado a lado.

PIÁ!

     Antes mesmo de você chegar já era amado por todos. Lembro como se fosse hoje. A alegria quase sufocante de saber que estavas a caminho.
     Deram-te o nome do teu tio. Era de certa forma, um retorno, um recomeço, um alento para os velhos. E ao mesmo tempo havia a preocupação que teu nome viesse a ser um fardo. Mas não foi. Nunca.
     O primeiro presente fui eu quem comprei. Na mesma tarde que fiquei sabendo que seria tio. Não tinhas ainda o corpo totalmente formado, mas já era aquele que enchia nossos corações de vida. De alegria e de esperança.
     Você chegou, Rechonchudo. Cheio de dobrinhas. Cabeludo. Poucos dias depois de teu avô escapar da morte. Hoje eu sei. Ele não poderia nunca ir sem conhecer o maior amor da vida dele. Sim. Foi você que o presenteou com mais quatorze anos de vida.
     Tua avó foi a segunda mãe. A que sabia te acalmar, a que acalentava. A que se doava. Viu só? Nisso ambos tivemos sorte. Os dois com duas mães.
     Tua mãe, o que dizer? Para ela, você foi a maior "obra" de uma vida. Mãe. Amiga. Companheira. A amiga dos teus amigos, a sogra "puxa-saco" (no bom sentido) e sempre defensora da Aline, a tua namorada, companheira e parceira de todas as horas. O amor incondicional. Em seu estado puro. Eterno. A que se preocupa. A que sofre. A que chora. Mas principalmente a que se orgulha. A que vibra pelo filho concebido, criado, educado, formado e hoje, bixo novamente.
     Tuas tias, tios, primas e primos, mesmo à distância e por saberem que sempre foi o "mais na sua" da família, sempre te entenderam, sempre te amaram, assim como és.
     Eu? Bem, talvez tenha  te influenciado em algumas coisas. O time escolhido, amado e sempre defendido. As tentativas "frustradas" para que se tornasse um zagueiro vigoroso. A iniciação no videogame. As viagens como meu co-piloto. Os primeiros toque sobre as meninas. As idas e ajudas para as festas. 
     Mas fui principalmente aquele que quase calado, admirava e se orgulhava de levar o sobrinho nenê, passear de carro na praia, para somente assim, após horas, finalmente parar de chorar e dormir. Ali mesmo. Aquele que achava o máximo fazer patas de coelho com talco na páscoa para você procurar o ninho. Nem deve lembrar, mas eu fazia caminhos falsos para te sacanear. O que imitava a voz grossa do Papai Noel para o "Pimpo" que ficava admirado com isso. Aquele que passava horas (por mais incrível que pareça isso hoje, já que desde sempre fostes quieto e reservado)  papeando no quarto. Desenhando. Tentando me explicar esses desenhos. Ajudando o "Tio Dindo" com o aquário. Repetindo desajeitadamente "Yarenchuk" e "Yakovenko", mesmo recém aprendendo a falar. O que te acompanhava quase todo final de tarde deitado no chão da sala vendo o Chaves e Chapolim, gargalhando quase juntos. O que corria desembestado, todo suado, dessarumado por entre mesas e convidados na minha formatura.
     Até que foi crescendo o piá. Até se tornar o Paulinho, cabeludo, grandão, dono de si. Festeiro, querido por todos, rodeado de amigos. Dedicado. Estudioso. Trabalhador. Batalhador. Professor.
     Quieto. Dinâmico. Centrado. Irritadiço. Casmurro às vezes. Realmente, coisas da família. 
     Mas sempre, para mim, o piá. Aquele que até hoje na hora de sair, tem que voltar para fazer alguma coisa que esqueceu. Futuro médico. 
     Orgulho de ti. Sempre. Obrigado por novamente iluminar nossas vidas.
     Te amo, piá!