À primeira vista parecia um
senhor respeitável, com seus sessenta e cinco anos, mas aparentando apenas uns
sessenta e quatro anos e dez meses. Mas não era. Pensando bem, só parecia mesmo
respeitável quando olhado de relance ou dando-lhe uma olhadela de soslaio.
Somente assim.
Até
porque ao olhar mais acuradamente, se vê o principal motivo para não
considerá-lo respeitável... O cabelo pintado de acaju! Sim! O indefectível, o
inefável acaju! Para tentar explicar melhor, essa cor é um pouco parecida com o
pelo do Garfield, ou do Pluto. Resumindo, é um laranja desbotado.
Mas
havia ainda outros indícios que demonstravam que ele não era um senhor
respeitável. Tinha várias tatuagens de estrelinhas coloridas, bem parecidas com
aquelas que garotinhas do prezinho fazem. Mais de vinte estrelinhas em cada
braço. Uma de cada corzinha. Amarela, vermelha, azul, verde, laranja, rosa,
fúcsia, marrom, pretinha, dourada, prata...
Usava
também uma pochete de couro. Sempre! Desde os anos 90. Em volta da sua cintura
e sempre por cima da camiseta, para chamar um pouco mais de atenção. O uso de uma capanga ficaria menos ridículo.
Também
possuía uma coleção de camisetas de super-heróis. Sete, na verdade. Uma para
cada dia da semana. Em realidade, de super-heróis, eram “apenas” seis. Três da
Marvel: Capitão América, Homem-Aranha e Wolverine. Da DC tinha uma do Batman,
Arqueiro Verde e a mais ridícula de todas, uma camiseta igual ao uniforme do
Robin. Logicamente que ele não poderia trair seus valores e ter uma camiseta a
mais de qualquer uma das maiores editoras de HQ’s “heroísticas”, como ele
sempre falava.
Então
a solução encontrada para tal impasse, foi comprar a camiseta domingueira com a
imagem do Manda-Chuva, que combinava com a cor do cabelo.
Além
disso, usava só dois tipos de calçados. Uma papete, que não deixa de ser a
mistura de uma “chinela de dedo” com uma sandália antiga, tipo São Francisco,
só que de plástico. Ou um crock. Qualquer um dos dois é algo triste de se
ver... E qual a cor das duas? Laranja? O motivo? Nem preciso mais comentar,
você leitor perspicaz, já sabe...
E
para finalizar o quadro da dor com a moldura do desespero, no inverno usava
toca de pompom. E no verão, lenços
amarrados na cabeça, sempre de caveirinhas, de vampiro da Saga Crepúsculo, de
ideogramas do alfabeto kanji que ele não fazia mínima ideia do que significavam
(não que eu faça) e o mais lamentável de todos, um lencinho com smileys. Sim,
isso mesmo!
Difícil
não vê-lo na rua e achá-lo um tanto quanto bizarro. Mas por outro lado, ele
tinha um estilo todo dele. Próprio. O que, convenhamos nos dias de hoje, é algo
salutar, em um tempo de patricinhas, mauricinhos e quadriculados de franja,
todos iguais como se tivessem saído de uma linha de produção de uma fabriqueta
de roupas chinesas.
Não
era sua vestimenta, digamos peculiar, que não o tornava um senhor respeitável.
Não mesmo. Era algo mais lamentável que tudo que já foi elencado anteriormente.
Sim. Acredite! Só piora!
Todos
os dias da semana, ele ficava espreitando lojas de lingeries. Parece que além
de admirar calcinhas, soutiens, cintas-ligas, espartilhos, short dolls,
camisetes, corselets, camisolas, anáguas e baby dolls, ele almejava, apesar da
idade, as menininhas e garotas que freqüentavam tais lojas.
Sua
abordagem era sempre a mesma, usava sempre o mesmo “modus operandi”. Avistava-a, estudava-a sorrateiramente e após
certificar-se que entraria na loja, ia em direção da “vítima” com andar natural
e jeitão distraído; e batia com seu pulso esquerdo, o do relógio, no relógio do
“broto”. O estrondo quase sempre era alto. Parava de inopino. Olhar de surpresa
e comiseração para a menina em sua frente. O pedido de desculpas. Um misto de
educação e candura. E seguia seu caminho.
Aquilo
despertava nas meninas um sentimento de piedade, de compaixão e um pensamento
do tipo: “Pobrezinho! Ficou tão sem jeito o tiozinho! Tão educado! Querido!
Realmente um senhor respeitável! Óóóóiinn”!
Após
um bom tempo, afinal a menina além de fazer suas comprinhas, teve que olhar
toda a loja, ver todas as araras, todas as prateleiras, todos os balcões. O que
é algo mais que natural. Pois bem, após esse tempo, ela sai da loja distraída e
feliz com suas aquisições, e encontra-se novamente com o “senhor respeitável”,
que sem a menor cerimônia, para em sua frente, puxa do bolso de sua calça um
papelzinho surrado, amassado, amarelado pelo tempo e lhe entrega com um número
de celular e seu nome.
A
menina estupefata só consegue pensar: “Véio tarado fia da puta”!!!!
*Esse conto foi livremente baseado no caso real de uma grande amiga
minha, que a postou em sua página no facebook. Valeu pela inspiração, Carol
Pinup! Pácábá!