sábado, 12 de maio de 2012

DESPERTO


                                                             

     Acorda de sobressalto, olha para o relógio do celular e vê a hora. Quatro e quinze. Um filete de suor escorre pela sua fronte, acabou de ter um pesadelo. Encosta o travesseiro na parede para se acomodar melhor. Senta-se devagar. Espicha as pernas e espreguiça-se demoradamente. Os olhos aos poucos vão se acostumando ao breu.

     A réstia de luz que entra pela porta do quarto ilumina suavemente a cama e ele a olha enternecido. Ela dorme o sono dos justos. Ou o sono decorrente de uma noite feliz. Seus lábios estão entre entreabertos, como um sorriso. Seus cabelos loiros, platinados estão desgrenhados e lhe cobrem um pedaço do rosto que mesmo ali, com uma luz bruxuleante, parece se iluminar.

     Seu corpo alvo, lânguido, está relaxado, o que lhe dá um ar ainda mais tranquilo. Ela ressona baixinho. Quase um suspiro. Ele passa sua mão em seu ombro, lhe acaricia com carinho e ela se arrepia, chega mais perto e tenta se aninhar em seu corpo. Sente frio... Como sempre.

     Ele coloca o travesseiro na posição habitual, desliza o corpo pela cama e volta a se deitar, encosta seu corpo no dela, para lhe aquecer, lhe proteger. O suspiro se transforma em um gemido longo, seus lábios se encontram. Um beijo longo, quente, gostoso. Ela agora abre os olhos e lhe sorri. Um sorriso largo, suas mãos se entrelaçam. 

     Conforme o corpo dela vai relaxando, amolecendo aos poucos, sendo vencido pelo sono inclemente, ele lhe puxa com cuidado para mais perto. Seus braços em volta do seu dorso, lhe abraçando forte. Ela responde da mesma forma e adormece 
com o rosto recostado em seu peito.

      Ela boceja e tanta falar alguma coisa, mas inaudível. Ele beija sua testa e sorri. Sabe que está onde queria estar e com a pessoa que lhe faz feliz. Fecha os olhos e relaxa. Um sopor sereno e sauve toma conta de seu corpo.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Resiliência?


                              O céu parecia uma aquarela um tanto quanto sinistra. Matizes de azul escuro, cinza e roxo deixavam a atmosfera ainda mais pesada. Uma chuva forte se aproximava da cidade. Raios cortavam o céu, agora enegrecido.
                               Ali, parado estava ele. Maltrapilho, magro, sujo, com seus 70 anos. Escorado com a mão direita no portão da bem ornada residência, na mão esquerda uma garrafa de cachaça. Da mais barata. Falava palavras desconexas. Frases sem sentido para quem o ouvisse, mas na sua cabeça, ele lembrava os tempos idos, os amores perdidos, a família que o abandonou, a riqueza, os amigos que ficaram pelo caminho.
                               Só consegue sentir pena de si mesmo. Nem forças para se revoltar têm mais. Tanto mental quanto fisicamente. Mais um dia sem forrar o estômago. Mais um dia de dor. Mais um dia perdido na sua pobre e triste existência. Queria estar morto há tempos. Nada mais tinha a perder. Vários de seus amigos optaram pelo que entendiam ser mais fácil e menos indolor. Nem coragem para isso tinha. Havia se tornado um pária. Um peso morto. Um nada.
                               Ao seu lado, o único companheiro que restou. Um cachorro preto e grande. Tão sujo, magro e maltrapilho, quanto ele. Nem lembra quanto tempo estão juntos. Quantos invernos e quantos verões juntos. Tição, esse o nome do cusco, estava com ele desde pequeno. A fome e a merda de vida os uniram. Uma junção sincera, doída e por mais incrível que pareça, pura.
                               Sabe que não tem mais nada. Mais ninguém. Tudo que um dia amealhou, seja material ou não, inexistem hoje. Se ao menos tivesse um teto, mas nem isso. Vive das esmolas. Dos restos. Do que lhe alcançam com olhares de compaixão e repulsa. Ele sente esses olhares que o penetram como lanças pontudas. Sente-se invariavelmente menor que seu fiel companheiro. Esse, pelo menos ganha seu alimento sem entender o asco e o nojo dos homens.
                             Nos poucos momentos de lucidez que ainda tem, fragmentos desconexos de lembranças enchem sua cabeça. Sentado no meio-fio, imagens fazem seus olhos se encherem de lágrimas... A bancada das ferramentas. Todas organizadas. Um quintal. Gramado verdejante. Árvores frondosas. Risos. Balbúrdia. Gritaria. Os convites da filha para brincar. A garagem de madeira. Grande. Envernizada. A varanda. Rede. Cadeiras. E ela. Sorrindo, lhe chamando para o almoço. Linda. Olhos amendoados. Cabelos soltos. Negros. Curtos. O avental branco. Maria. Quase certeza que esse era o nome.
                         As lágrimas agora lhe encharcam o rosto. Escorrem pelo pescoço, pingam em seu sapato rasgado. As mãos seguram a cabeça. Os cotovelos apoiados nos joelhos esquálidos. Minutos se passam. A chuva bondosa lava seu rosto. Seu corpo. Sua alma. Tição, que via tudo deitado na sua frente, levanta, sai debaixo do carro. Se chacoalha vigorosamente. Retira boa parte da água de seus pelos. Anda pesadamente em direção ao seu amigo. Olha-o enternecido. Mexe o rabo quase como uma hélice quebrada de um ventilador. Desajeitado. Lambe a fronte de Zé. Rápido. Uma. Duas. Três vezes. Late como se avisasse seu companheiro que a chuva havia ido embora. O latido sai débil. Quase inaudível. Um lamento.
                          O homem levanta a cabeça. Devagar. Os olhos semicerrados. O brilho incipiente dos raios de sol, rasgando aos poucos as nuvens pesadas, toca seu rosto sutilmente. As mãos espalmadas sobre as canelas molhadas. Tenta se erguer flexionando os joelhos. Não consegue, Falta-lhe força no corpo desnutrido. Lentamente inclina seu corpo para trás. Apóia os dorsos das mãos no chão. Uma de cada lado. Afirma a planta do pé direito na calçada e vira a perna para o lado de fora, usando o joelho como uma precária alavanca. Sente seus ossos estralarem como dobradiças enferrujadas. Levanta-se.
                      A cabeça dói. As mãos doem. Esfrega os olhos. Passa a mão nos cabelos brancos. Um suspiro vem do fundo do seu peito. Abaixa-se, pega a cachaça caída aos pés do cachorro. Afaga-o com carinho, delicadamente. Outro latido. Agora mais forte. É hora de ir embora. Ir para “casa”, seja lá onde ela for. A caminhada é longa. Os dois seguem cabisbaixos, lado a lado.

PIÁ!

     Antes mesmo de você chegar já era amado por todos. Lembro como se fosse hoje. A alegria quase sufocante de saber que estavas a caminho.
     Deram-te o nome do teu tio. Era de certa forma, um retorno, um recomeço, um alento para os velhos. E ao mesmo tempo havia a preocupação que teu nome viesse a ser um fardo. Mas não foi. Nunca.
     O primeiro presente fui eu quem comprei. Na mesma tarde que fiquei sabendo que seria tio. Não tinhas ainda o corpo totalmente formado, mas já era aquele que enchia nossos corações de vida. De alegria e de esperança.
     Você chegou, Rechonchudo. Cheio de dobrinhas. Cabeludo. Poucos dias depois de teu avô escapar da morte. Hoje eu sei. Ele não poderia nunca ir sem conhecer o maior amor da vida dele. Sim. Foi você que o presenteou com mais quatorze anos de vida.
     Tua avó foi a segunda mãe. A que sabia te acalmar, a que acalentava. A que se doava. Viu só? Nisso ambos tivemos sorte. Os dois com duas mães.
     Tua mãe, o que dizer? Para ela, você foi a maior "obra" de uma vida. Mãe. Amiga. Companheira. A amiga dos teus amigos, a sogra "puxa-saco" (no bom sentido) e sempre defensora da Aline, a tua namorada, companheira e parceira de todas as horas. O amor incondicional. Em seu estado puro. Eterno. A que se preocupa. A que sofre. A que chora. Mas principalmente a que se orgulha. A que vibra pelo filho concebido, criado, educado, formado e hoje, bixo novamente.
     Tuas tias, tios, primas e primos, mesmo à distância e por saberem que sempre foi o "mais na sua" da família, sempre te entenderam, sempre te amaram, assim como és.
     Eu? Bem, talvez tenha  te influenciado em algumas coisas. O time escolhido, amado e sempre defendido. As tentativas "frustradas" para que se tornasse um zagueiro vigoroso. A iniciação no videogame. As viagens como meu co-piloto. Os primeiros toque sobre as meninas. As idas e ajudas para as festas. 
     Mas fui principalmente aquele que quase calado, admirava e se orgulhava de levar o sobrinho nenê, passear de carro na praia, para somente assim, após horas, finalmente parar de chorar e dormir. Ali mesmo. Aquele que achava o máximo fazer patas de coelho com talco na páscoa para você procurar o ninho. Nem deve lembrar, mas eu fazia caminhos falsos para te sacanear. O que imitava a voz grossa do Papai Noel para o "Pimpo" que ficava admirado com isso. Aquele que passava horas (por mais incrível que pareça isso hoje, já que desde sempre fostes quieto e reservado)  papeando no quarto. Desenhando. Tentando me explicar esses desenhos. Ajudando o "Tio Dindo" com o aquário. Repetindo desajeitadamente "Yarenchuk" e "Yakovenko", mesmo recém aprendendo a falar. O que te acompanhava quase todo final de tarde deitado no chão da sala vendo o Chaves e Chapolim, gargalhando quase juntos. O que corria desembestado, todo suado, dessarumado por entre mesas e convidados na minha formatura.
     Até que foi crescendo o piá. Até se tornar o Paulinho, cabeludo, grandão, dono de si. Festeiro, querido por todos, rodeado de amigos. Dedicado. Estudioso. Trabalhador. Batalhador. Professor.
     Quieto. Dinâmico. Centrado. Irritadiço. Casmurro às vezes. Realmente, coisas da família. 
     Mas sempre, para mim, o piá. Aquele que até hoje na hora de sair, tem que voltar para fazer alguma coisa que esqueceu. Futuro médico. 
     Orgulho de ti. Sempre. Obrigado por novamente iluminar nossas vidas.
     Te amo, piá!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

PERFEITO ESPIRAL

     Sentado, pernas cruzadas, fumando avidamente. Havia parado por seis meses, mas o vício foi mais forte. Voltou com tudo. Agora reiniciou seu processo de "cura". Espera o café. Forte como ele gosta. O olor penetra suas narinas. Bom. É o primeiro sentido que sempre lhe desperta o desejo de sorvê-lo calma, lenta e tranquilamente.

     Balança o pequeno sachê com açúcar. Coloca na xícara, mexe com cuidado e esmero.  O primeiro gole é como um bálsamo para alma. Reconfortante. Apaga a bagana do cigarro. Um miligrama de alcatrão. Dizem ser mais fraco. Será? O cheiro que fica em seus dedos e mãos sempre parece o mesmo. Toma outro gole, agora mais generoso. Uma espiral de fumaça acinzentada e renitente chega aos seu nariz. Perfeita, uma espiral circular, etérea, que se elevava devagar e sumia no ar de um  modo brando, esvanecendo até sumir sem deixar rastros... Esmaga novamente a guimba em movimentos rápidos e repetitivos. Olha para a mão e vê a marca branca da aliança que antes estava ali. Consegue apagar. Cruza as pernas e chacoalha o pé esquerdo repousado sobre o direito nervosamente.

     Ideias borbulham em sua cabeça, passam céleres, vão e voltam. Observa os outros frequentadores do Café. Mulheres em sua maioria. Quatro. Cada uma com sua beleza singular e seus atributos. Suas bolsas, conversas, baforadas, risadas, mensagens e celulares, olhares às vezes lânguidos, às vezes discretos, noutras blasé.

     Seus olhos agora visualizam a rua, o movimento dos carros, dos transeuntes apressados na calçada, na parada de ônibus. Cansados. Lojas sendo fechadas. Portas pantográficas barulhentas sendo baixadas, luminosos de neon sendo acesos.  Pessoas carregadas com sacolas, mochilas, pastas e bolsas. Cada uma vivendo se próprio mundo, sua própria história. Apressados. Exaustos. Bocejantes. Distraídos. Nenhum parece notar a beleza  que se descortina no horizonte com o pôr do sol que transforma  o céu em um aquarela multi-colorida. Luminosa. Roxo, amarelo, azul, laranja, vermelho...

     Um barulho forte de uma freada quase em cima da faixa de segurança, o desperta de seu frenesi urbano.  Levanta, arruma sua camisa, pega a carteira de cigarros, os óculos, seu celular, paga pelo café e vai para a rua, viver também sua história.

QUASE UMA ODE AO RIVAL...



     Chega em casa tarde. Atrasado. Seu último paciente demorou mais do que ele imaginava. O carro na oficina. Esperando a maldita peça de São Paulo. Caminhou quase dez quadras. Sapato apertado. Imaginava que hoje finalmente voltaria dirigindo confortavelmente ouvindo o "Come Around Sundown". Invés disso, caminhada com uma garoa intermitente. Chega em casa encharcado. Os pés latejando. Gira a chave. Tira os sapatos. Alívio. Acende a luz. 

     Adalberto como sempre está sentado no sofá. Olhos vermelhos. Cara amassada de sono. Lhe olha de soslaio. Desce, já pulando em um salto no seu colo. A lambida vai da testa até o queixo, passando pelos olhos e boca. Sente fome e quer comer rapidamente. Sua ração já era, água de sobra, como sempre. Onde estava com a cabeça quando resgatou esse São Bernardo de dentro do contâiner de lixo seco? Ele mesmo sabia a resposta. O erro dele foi olhar para aquela cara impagável, o já famoso "olhar pidão". 

     Ao mesmo tempo que passa a mão no rosto, vai andando e tirando a camisa branca. Joga no cesto de roupa suja. Volta, liga a televisão. Tocando o Hino Nacional. Times perfilados. Pensa um pouco e desliga, afinal nem adianta secar. No outro time tem o hermano. Cabelo de garnisé, corpo de grilo e futebol de gente grande. Provocador. Insinuante. Passes milimétricos, dribles desconcertantes e chutes precisos. Parece que vai embora. Chinesada cheia da grana. Novo Eldorado do futebol mundial. Torcida pede em coro que ele fique. Já viu esse filme várias vezes, inclusive do seu lado, o lado azul. Sabe que não adianta nada. Muita emoção, muita gritaria, muito choro, pouca ação. Torcida não paga jogador. Por melhor que ele seja e esse é o caso do gringo. Sem perceber, volta seus olhos para o alto e faz um pedido silencioso: "Que vá de uma vez e não volte mais"!

     Desiste quando sai o primeiro gol deles. Passe de quem? Dele, D'Ale. Desgraçado! Joga muito! Larguei!              Termina o banho quente. Agora sim, relaxado. Mas não aguenta e dá mais uma olhada. Quinze do segundo, ainda 1 X 0. É pouco, pensa... Desliga a tevê para não dar azar. Come um sanduíche de atum, tomate, queijo cheddar, alface crespa e cenoura picada. Um suco de uva, natural, para acompanhar. Arruma a cama do graúdo, que está sentado em frente ao box do banheiro, acompanhando com com os olhos os movimentos do dono. 

     Arrisca dar uma ligada no rádio em cima do criado-mudo, já que não ouviu nenhum barulho. Nem foguete, nem buzina. Muito menos algazarra. Terminou como estava antes. Placar magrinho. Esboça um sorriso de canto de boca. Apaga a luz. Vai dormir tranquilo. Seu algoz está indo embora, para bem longe se Deus quiser. Antes de finalmente fechar os olhos pensa: "É... apesar de tudo um foi um bom dia. Muito bom".

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Um respeitável senhor?


     À primeira vista parecia um senhor respeitável, com seus sessenta e cinco anos, mas aparentando apenas uns sessenta e quatro anos e dez meses. Mas não era. Pensando bem, só parecia mesmo respeitável quando olhado de relance ou dando-lhe uma olhadela de soslaio. Somente assim.

     Até porque ao olhar mais acuradamente, se vê o principal motivo para não considerá-lo respeitável... O cabelo pintado de acaju! Sim! O indefectível, o inefável acaju! Para tentar explicar melhor, essa cor é um pouco parecida com o pelo do Garfield, ou do Pluto. Resumindo, é um laranja desbotado.

    Mas havia ainda outros indícios que demonstravam que ele não era um senhor respeitável. Tinha várias tatuagens de estrelinhas coloridas, bem parecidas com aquelas que garotinhas do prezinho fazem. Mais de vinte estrelinhas em cada braço. Uma de cada corzinha. Amarela, vermelha, azul, verde, laranja, rosa, fúcsia, marrom, pretinha, dourada, prata...

    Usava também uma pochete de couro. Sempre! Desde os anos 90. Em volta da sua cintura e sempre por cima da camiseta, para chamar um pouco mais de atenção.  O uso de uma capanga ficaria menos ridículo.

    Também possuía uma coleção de camisetas de super-heróis. Sete, na verdade. Uma para cada dia da semana. Em realidade, de super-heróis, eram “apenas” seis. Três da Marvel: Capitão América, Homem-Aranha e Wolverine. Da DC tinha uma do Batman, Arqueiro Verde e a mais ridícula de todas, uma camiseta igual ao uniforme do Robin. Logicamente que ele não poderia trair seus valores e ter uma camiseta a mais de qualquer uma das maiores editoras de HQ’s “heroísticas”, como ele sempre falava.

     Então a solução encontrada para tal impasse, foi comprar a camiseta domingueira com a imagem do Manda-Chuva, que combinava com a cor do cabelo.

      Além disso, usava só dois tipos de calçados. Uma papete, que não deixa de ser a mistura de uma “chinela de dedo” com uma sandália antiga, tipo São Francisco, só que de plástico. Ou um crock. Qualquer um dos dois é algo triste de se ver... E qual a cor das duas? Laranja? O motivo? Nem preciso mais comentar, você leitor perspicaz, já sabe...

        E para finalizar o quadro da dor com a moldura do desespero, no inverno usava toca de pompom.  E no verão, lenços amarrados na cabeça, sempre de caveirinhas, de vampiro da Saga Crepúsculo, de ideogramas do alfabeto kanji que ele não fazia mínima ideia do que significavam (não que eu faça) e o mais lamentável de todos, um lencinho com smileys. Sim, isso mesmo!

        Difícil não vê-lo na rua e achá-lo um tanto quanto bizarro. Mas por outro lado, ele tinha um estilo todo dele. Próprio. O que, convenhamos nos dias de hoje, é algo salutar, em um tempo de patricinhas, mauricinhos e quadriculados de franja, todos iguais como se tivessem saído de uma linha de produção de uma fabriqueta de roupas chinesas.

       Não era sua vestimenta, digamos peculiar, que não o tornava um senhor respeitável. Não mesmo. Era algo mais lamentável que tudo que já foi elencado anteriormente. Sim. Acredite! Só piora!
     Todos os dias da semana, ele ficava espreitando lojas de lingeries. Parece que além de admirar calcinhas, soutiens, cintas-ligas, espartilhos, short dolls, camisetes, corselets, camisolas, anáguas e baby dolls, ele almejava, apesar da idade, as menininhas e garotas que freqüentavam tais lojas.  

      Sua abordagem era sempre a mesma, usava sempre o mesmo “modus operandi”. Avistava-a, estudava-a sorrateiramente e após certificar-se que entraria na loja, ia em direção da “vítima” com andar natural e jeitão distraído; e batia com seu pulso esquerdo, o do relógio, no relógio do “broto”. O estrondo quase sempre era alto. Parava de inopino. Olhar de surpresa e comiseração para a menina em sua frente. O pedido de desculpas. Um misto de educação e candura. E seguia seu caminho.

        Aquilo despertava nas meninas um sentimento de piedade, de compaixão e um pensamento do tipo: “Pobrezinho! Ficou tão sem jeito o tiozinho! Tão educado! Querido! Realmente um senhor respeitável! Óóóóiinn”!

        Após um bom tempo, afinal a menina além de fazer suas comprinhas, teve que olhar toda a loja, ver todas as araras, todas as prateleiras, todos os balcões. O que é algo mais que natural. Pois bem, após esse tempo, ela sai da loja distraída e feliz com suas aquisições, e encontra-se novamente com o “senhor respeitável”, que sem a menor cerimônia, para em sua frente, puxa do bolso de sua calça um papelzinho surrado, amassado, amarelado pelo tempo e lhe entrega com um número de celular e seu nome.
         
      A menina estupefata só consegue pensar: “Véio tarado fia da puta”!!!!


*Esse conto foi livremente baseado no caso real de uma grande amiga minha, que a postou em sua página no facebook. Valeu pela inspiração, Carol Pinup! Pácábá!

sábado, 14 de janeiro de 2012

Ãham. É bem assim. Aceite!

     E agora era cada um para seu lado. Cada um no seu canto. Cada macaco no seu galho, como diria minha mãe.

     Precisavam se acostumar a nova vida. Por anos foram um casal. Como se fossem um ente uno. A dupla. Como Bonnie & Clide, Lyz Taylor & Richard Burton, Romeu & Julieta, Marie & Pierre Curie, Elektra e Demolidor, Heather Mills &  Sir Paul McCartney...

     E qual a semelhança entre todas essas famosas duplas? Todas terminaram. Por algum motivo. Pode, inclusive a morte ter sido esse motivo, seja de um deles ou de ambos, como no caso do eterno romance do bardo, mas terminaram. Esse é o ponto.

     Enfim, relacionamentos que envolvam amor carnal, amor no sentido "bíblico", por mais duro e insensível que possa parecer, foram feitos para acabar. E isso, por mais que não queiramos, que não desejemos, é uma verdade absoluta.

     São como submarinos. Foram feitos para afundar. Pode até voltar à tona, por diversas vezes, mas vai submergir de novo. Creia nisso. Talvez essa valiosa informação te poupe algum sofrimento. Ou algum incômodo. Ou os dois, quem sabe...

     Ele, o relacionamento, pode ter sido maravilhoso, ótimo, muito bom, bom, nem tanto, mais ou menos, ruim ou uma bosta. Não importa qual a qualificação que agora você dê a ele. Um tempo depois, estaremos novamente á procura do tal amor. Nem que seja fugaz, por uma noite ou duradouro. Seja disfarçadamente, discretamente, naturalmente, platonicamente, desesperadamente ou com desfaçatez. Estaremos ali, atrás, cercando, buscando, tentando, almejando.

     Por mais que afirmemos, tanto mulheres como homens, que o "começar tudo de novo" em um relacionamento é difícil, é chato. Creia, ou melhor, tenha certeza que a maioria vai novamente embarcar nessa. Mesmo que para tanto, seja necessário observações (às vezes detalhadas), dedicação e interesse para vir a saber o que o outro gosta, não gosta, quer, não quer, o que pretende, quais suas aspirações.

     E assim, pode acreditar, que essa eterna busca de algo não palpável, imensurável e inexplicável, o tal amor, continuará. E será mesmo busca pelo amor, ou o medo da solidão? De ficar só?

     Você, evidentemente (acho eu) não possui tal resposta. Sem problema. Não se desespere Pequeno Gafanhoto. Prossiga buscando. Os dois. A resposta e o amor. E quando encontrar (qualquer um dos dois), volte aqui e me conte...




ABSTINÊNCIA

     Seu cabelo ruivo encaracolado - "tóin óin óin" alguns chamavam e como odiava isso! - estava encharcado. Puro suor, apesar do frio seco que fazia naquele julho glacial. Os ossos da pobre Rachel pareciam congelar. Mesmo assim suava.

     O suor molhava sua fronte, descia contornando seu nariz levemente aquilino, passando sobre suas pintinhas que lhe conferiam um ar ainda mais juvenil, apesar dos seus vinte e cinco anos, recém completos.

     Quando as gotículas de suor tocavam seu lábio superior, fazendo cócegas, ela invariavelmente passava a língua por toda a extensão da boca, sorvendo a substância de sabor ocre. Sempre gostou de fazer isso.

     Andava apressadamente por entre os carros que se deslocavam vagarosamente pela avenida central. Não prestava atenção no semáforo nem nos silvos agudos do apito do agente de trânsito que, com gestos ritmados, compassados, parecia um diretor de bateria de escola de samba, comandando o fluxo dos automóveis em frente a escola.

     Somente um pensamento lhe passava pela cabeça há vários dias...

     -Maldita abstinência! Maldita abstinência!

     A falta que ela sentia era enorme. Desesperadora. Lhe comprimia o peito, lhe coçava os olhos, lhe secava a  garganta,  lhe ardia as entranhas...

     Só pensava na falta. Na falta! Maldita abstinência! Maldita abstinência!

     Sua cabeça parecia prestes a explodir. Não aguentava mais. Chegava a doer. Suava cada vez mais. Um desespero tomava conta de si, além disso o corpo doía. Nuca, peito, estômago.

     Quanto mais pensava nos dias sem, mais perturbada ficava. Dependência física mesmo!

     Agora correndo pela calçada, se desviando das pessoas, dos cães, chorava.

     -Quinze dias! Quinze! Eu preciso! Preciso muito!

     A cabeça pesa. As pernas pesam. Parece que está correndo há horas. Só pensa em chegar. Sabe que falta pouco.

     -Hoje isso acaba! Não aguento mais! É muita tortura! Preciso muito! Muito!

     Agora suas lágrimas, cada vez mais abundantes se misturavam com o suor.  A abstinência é foda. Chega a doer. Ela não aguenta mais. Seus pensamentos se embaralham. Agora ela falava em voz alta consigo mesmo. Os transeuntes olham para ela de um modo sarcástico, parecendo saber o que ela estava prestes a fazer.

     -É, vou fazer mesmo! A vida é minha! Você tem alguma coisa a ver com ela? Paga minhas contas, tio? E a senhora, o que está olhando? Vaza! Chispa! Sai fora! Vai! Vai!

     Finalmente chega. Esbaforida. Além da dor causada pela abstinência, a corrida desembestada, a fez acumular ácido láctico nos músculos. Aquela dor lancinante, logo abaixo das costelas, do lado direito. Forte. Nem olha para os lados. Segue reto. Ele está ali, parado, com um pacote nas mãos. Quase volta a chorar, mas agora de alegria.

     Chega até sua frente, ele lhe entrega o pacote. Ela pega. Sôfrega, ávida e fala com voz embargada...

     - Jofre! Nunca mais faz isso! Meu amor! Te adoro! Seu bocó! Você lembrou do cd do Zeca Baleiro que te pedi!

     Se beijaram apaixonadamente. Jofre pega a sua mala em frente ao ônibus que seguiria viagem. O motorista tem pressa, todos passageiros já embarcaram.

     De mãos dadas, pegam um táxi. Felizes.

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É... O amor também vicia. E sua falta, dói.




sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

TORRIDEZ - parte 2.


     O sino da igreja acabara de tocar. Exatas dezesseis horas. Tudo havia sido orquestrado de um modo impressionante, silencioso e aparentemente abrupto pelo bando. Lá estavam os cinco. Acompanhados por uma turba gigantesca de desocupados, sofridos, banguelas e famintos. Todos, tal qual uma milícia bem treinada. Armados até os dentes. “A Gangue do Aborígene Empalador”.  Tal qual um exército, uma tropa beligerante. Com seus cinco comandantes. Em formação de ataque. Amedrontadores.

      Birosca era o líder. Centrado. Experiente. O sangue que corria por suas veias era gélido. Comandava com mão de ferro. 

    Chernobil era de todos, o mais demente, irascível e descontrolado. Uma bomba-relógio prestes a detonar, podendo levar tudo a seu redor pelos ares a qualquer momento. 

     Cueta apesar da alcunha um tanto burlesca e depreciativa era a eminência parda do bando. O mais capacitado. O mais preparado. O mais inteligente. Era aquele que embaralhava, distribuía e ainda comprava as cartas. Mentor intelectual de toda a bandalheira. Possuía contatos tanto com o submundo como com os donos do poder. Só não era o líder de fato pois sabia que não  possuía o dom de liderar. 

     Gargamel era o típico “pau para toda obra”. Piloto, mecânico, responsável pelo arsenal do grupo e pelas finanças. Volta e meia fazia à vezes de eletricista. Autodidata, Aprendeu tudo fuçando e vendo seu velho pai, famoso bandido de outrora, João Sem Braço. 

     Bisteca era... Bem, Bisteca era Bisteca. Simples assim. Alguém com tal apelido, não poderia nunca ser importante em qualquer tipo de grupo social. Fosse um grupo de escoteiros, de enxadristas, de CLJ, de terceira-idade, de pagode ou mesmo uma sociedade beneficente ou uma quadrilha, que era o caso.

     Ainda mais em se tratando de uma quadrilha respeitada e de nome tão pomposo. Resumindo, Bisteca era um néscio, um bronco. Mas era de confiança e irmão mais novo do Birosca. Todos fingiam que ele era vital para a logística e funcionamento do bando e ele acreditava piamente nisso. E isso bastava.

     Inicialmente, o bando era tratado pelos senhores do poder e pela nata de Capim Canela, como uma trupe circense que auxiliava a deixar os bandalhos, a ralé dos guetos em seu devido lugar, ou seja, na periferia, longe de seus olhares, sem sujar suas ruas arborizadas, sua praça tão bem conservada, suas lojas de grifes, café e restaurantes, freqüentados pelas “Pessoas de bem”.

     Acontece que os poderosos, esqueceram-se de algo fundamental. Que a miséria, a fome, o desprezo, o preconceito e descaso, machucam, calam fundo, revolta e dói. Muito.

     E, além disso, esqueceram-se também que qualquer um que demonstre o mínimo de interesse, de respeito para com esse povo desvalido, ganha sua confiança, respeito e gratidão eterna. E depois disso, fica fácil mostrar quem é o verdadeiro “inimigo”. 

    Aqueles que só lembram da rafuagem há cada quatro anos, quando lhes oferecem uma sacola econômica, um dinheirinho para cachaça, para pagar a luz e água, uma bola e uma boneca para os ranhentinhos desdentados e cheio de vermes que correm pelas ruelas de chão batido.

    Por mais que não pareça, quatro anos é muito tempo. Tempo suficiente até para surgir um poder paralelo, forte, coeso, indestrutível.

     E enquanto a high society vivia seu mundo de fantasia e ostentação, julgando estar à salvo e imaginando que os excluídos se dizimariam entre si. Ledo e fatal engano. A dor ensina a gemer e ensina também como se tornar mais forte, deixando de sentir receio, medo do que oprime, do que fere, do que humilha.

     Destarte, o circo estava armado. Mas não mais um circo na verdadeira acepção da palavra. Não um circo lúdico, um lugar de alegria, de gargalhadas, de palhaços esfarrapados, de mulher barbada e picadeiro. Definitivamente não. Surgia um circo dos horrores, com criaturas perversas, entes malignos, sedentos por vingança, com atiradores de facas sanguinários e bestas-feras, dispostos a tudo.

     O ataque foi devastador. Os soldadinhos, pobres-diabos que tentaram fazer um cordão de isolamento em frente ao salão da paróquia, onde se encontravam toda a “nata” entrincheirada, foram os primeiros a tombar, frente às rajadas certeiras. A segunda linha de defesa era composta por incautos funcionários e assalariados dos ricaços, sem ter a mínima ideia do que fazer, foi derrubada como jacas podres. Atingidos por tiros, pontaços de facão e adagas, foiçadas e machadadas. Não sobrou vivalma. Esses, as buchas de canhão, os bois de piranha, que foram deixados para fora, para que defendessem seus patrões, todos foram mortos. 

     Iniciou-se a invasão do salão, onde estavam, os até pouco tempo, donos da cidade, aquartelados e apavorados. A porta de ferro, que estava trancada por dentro, protegida por cadeiras, mesas e bancos resistiu pouco tempo. Logo veio abaixo. Os revoltosos, tais como títeres humanos, projetavam-se contra ela, não se importando com a dor, sangue ou ossos partidos. Só interessava derrubar a barreira que os separava de seus algozes. De seus detratores, de seus inimigos mortais.

     A última cidadela transposta. Como um símbolo, um marco da opressão que os assolou por toda uma vida. No chão. Destruída. Invadiram aos berros. Gritos de guerra. Gritos de felicidade. Gritos de raiva. De dor e de vendetta. De orgulho.

     Seus vituperadores ali, caídos. Muitos mortos. Outros feridos, sangrando. Choro e ranger de dentes, literalmente. Pouquíssimos com uma nesga de brio e vergonha na cara tentaram lutar, ou ao menos se defender. Esses tiveram uma morte quase indolor. Mas aqueles que se postaram em posição de genuflexo, soluçando como garotinhas e implorando por indulgência, foram assassinados com requintes de crueldade.

     Restaram as mulheres e crianças. A turba enfurecida urrava exigindo que fossem violentadas e  sacrificadas. Muitos começaram á cercá-las. A ameaça era iminente. Quando se ouve um estrondo. Fortíssimo. Era Chernobil, com uma rajada ensurdecedora de sua submetralhadora Colt 635. De imediato abriu-se um clarão em torno, das agora, prisioneiras.

     Birosca bradou com voz de trovão:
- Parem imediatamente! Agora! Já cometemos atrocidades demais por hoje! Agimos igual a eles! Chega! Nas crianças e mulheres, ninguém toca! Elas vão sair e ninguém rela! Ninguém! Entendido? Entendido?

     Ninguém retrucou. Um silêncio sepulcral envolveu todo o salão. Gargamel e Cueta puxaram as duas mulheres que estava a frente e as levaram até Bisteca, que as esperava na porta. Todas as outras seguiram. Choravam e soluçavam. Quando todas se reuniram em frente aos corpos inertes dos soldadinhos, ouviram a ordem...
-Sumam daqui! Não olhem para trás ou morrem! Vão! Em questão de poucos minutos, não havia uma para contar a história. 

     Para acalmar o povo que já demonstrava sinais de impaciência sobre a liberação dos infantes e mulheres, Birosca em cima de uma mesa, usada como se fosse um púlpito, falou, agora pausada e calmamente:
- Não sobrou nenhum. Aqueles que nos humilharam, que nos subjugaram, estão mortos. Os outros, seus filho, os que carregam em seus genes a maldade destes, foram escorraçados, assim como suas mulheres. Acabou! Peguem o que puderem. Qualquer coisa. Não deixem nada... Dinheiro. Roupas. Comida. Tudo! Tudo!

     Depois é cada um por si. Cada um faz sua história daqui para frente.

     Que Deus tenha pena de nós...

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

TORRIDEZ


     Na Vila do Gato Pançudo, nenhum morador sabia a origem do estranho nome da quadrilha, “Gangue do Aborígene Empalador”. Não bastasse isso, poucos da comunidade deviam saber o significado, tanto de “aborígene”, quanto de “empalador”. Dos membros da quadrilha, só um tinha uma vaga idéia do que queria dizer...

     Birosca, Cueta, Chernobil, Gargamel e Bisteca. Eis o bando. Eles apavoravam, não só a vila, como toda a redondeza, toda a cercania.

     Em verdade, toda a cidade temia o quinteto, pois eram tidos como violentos, sanguinolentos, dementes e impiedosos. Mas enquanto continuasse a agir, ou seja, matar, ferir e roubar na periferia, para a “nata” da sociedade, estava tudo ás mil maravilhas!

     O comentário que mais se ouvia junto ao coreto da praça, no átrio da igreja, em frente à delegacia de polícia e no estacionamento do fórum, é que enquanto continuassem a matar e roubar somente a gentalha, a tigrada, estava tudo muitíssimo bem.

     Inclusive o prefeito, Sr. Golbery Calçadas bradava em alto e bom som em seu gabinete luxuoso, mas de péssimo gosto, que “QUANTO MAIS SE MATAREM, MELHOR! LIMPA A CIDADE! AREJA O AMBIENTE”!

     Só ficava um pouco chateado quando lembrava que teria menos Zé Povinho para pagar impostos, tributos, taxas... Mas logo emendava novamente aos gritos: “É O PREÇO DO DESENVOLVIMENTO! É O PREÇO! É O PREÇO”!

     O pároco Augusto Paulo, era filho de influente político da capital, da tradicional família Dophilo. Assim, o pároco conhecido de longa data, por Augusto P. Dophilo fazia vistas grossas ao sofrimento de seu rebanho, de seus fiéis, menos abastados e mais afastados... "É, A VIDA NÃO ESTÁ FÁCIL PARA NINGUÉM. MAS DE REPENTE EU LEMBRO DE REZAR PARA ELES... DESDE QUE O DÍZIMO ESTEJA EM DIA"...

     E o delegado Astolfo Dias Povo, pouco se lixava para o que acontecia nas vilas. O centro estando em ordem, com aparência de seguro, com ruas parcialmente vigiadas, passando a sensação de tranqüilidade e a bandidagem agindo nos bairros, nos becos, antros e ruelas, todos “de bem” ficavam felizes.

      E assim seguia a vida feliz, despreocupada, fútil e vã da “high society” de Capim Canela.

     Mas nos últimos dias, algo parecia diferente. Pesado. Estranho. Quem primeiro percebeu foi o Balbuena, gerente do Banco H. Romeu Pinto, o único de toda região.

     O próprio clima, árido, baforento, sem nenhuma brisa, parecia prenunciar o flagelo vindouro...

                                                                                                                                                
                                                                                                                                                                                                             continua

Um cara chamado Lu



                        Conheço um cara, que atende pela alcunha de Lu. Acho que posso chamá-lo de amigo, uma vez que nos conhecemos há um razoável tempo. Aproximadamente uns dez anos. Ainda mais nessa época que os amores, pessoas, valores e até as amizades são virtuais. Então, pode-se considerar um tempo em torno de dez anos, como suficiente para fazer (e principalmente manter) uma amizade.
                        Ele é um cara meio esquisito. Branco e muito, mas muito magro. Esquálido, na realidade. Tão magro, que esse ele usasse um pijama, esse teria uma listra só! Calado, às vezes taciturno… Muito introspectivo. Na verdade não abre a boca para nada… Literalmente. Apesar de estar sempre nas bocas… O que não deixa de ser uma contradição! Muitos não o consideram uma companhia ideal. Ele é muito discriminado. E noto que quando ando com ele, também sofro tal discriminação…
                        Na verdade, já vi muita gente tratando-o mal, com desdém e com nenhuma educação. Quantas vezes já ouvi alguns dizerem… - Oh! Tu anda muito “acesinho, muito impetuosinho” para o meu gosto! Melhor se aquietar! Sim, sim… Já o vi muitas pessoas faltando com o respeito com o velho Lu! Se bem que ele também não tem muita noção das coisas… Mesmo sem tecer comentários sobre nada, ele ás vezes perturba sim… Triste admitir, mas eu mesmo cansei de vê-lo aprontando confusões, infestando o ambiente, e soltando fumaça pelas ventas!
                        Em compensação, há lugares que fazem questão de sua presença. Diria mais… Há lugares que só ficam realmente interessantes, quando o velho Lu, está por lá! E quando ele sai com outros camaradas dele? Nossa! Aí sim a festa fica completa! Algumas vezes já saí com a turma dele! Bando de desajustados! Nesses lugares, onde são benquistos, são piores que cachorros. Ou seja, onde tiver uma luz acesa e uma porta aberta, eles estão entrando!
                        A patota é realmente supimpa! Agitados e festeiros… Quase sempre estão juntos… O velho Lu, o esquentado John, também chamado de Preto John, o Camelo, o irascível Cavalo Branco, o serelepe Caipirinha, o aristocrático Winston, o bagaceira Pitu, o encorpado Valduga… Sem falar nas loiríssimas e gostosas Patrícia e Sol! Turma legal, mas ás vezes sair com eles, é um verdadeiro porre! São a alegria de bares, shows, quermesses, raves, festinhas de rock, tipo as dos Dinartes e até em zonas fazem sucesso! Dizem… Pois aí, já não sei de nada!
                        Mas fazer o quê… Como dizem meus confrades Morto e Turco, é amigo… E um ótimo companheiro. Do tipo que está sempre pronto para te ouvir, não interessa a hora do dia. Apesar de não emitir nenhuma opinião acerca de assunto algum, sua presença é muito reconfortante. Cansei de apelar para seus conselhos nas mais diversas e inusitadas ocasiões. Desde festas até acompanhamentos de féretros… Quando tenho dinheiro ou não… Feliz ou triste. Num ambiente respeitador ou num jogo do Gaúcho… Em acampamentos ou viagens de negócios. Se bem, que para estar com ele, sempre danço com no mínimo quatro pilas! Baita aplicão! Mas, é amigo… E para qualquer hora, não?
                        Mas de uns tempos para cá, tenho começado a mudar de opinião em relação à nossa amizade. Acho que ele me suga demais… Ou talvez, seja o contrário. Ele não tem me feito mais tão bem quanto antigamente. Não me sinto tão disposto quanto antes para agüentá-lo quase todas as horas do dia. Deve ser um sinal de amadurecimento de minha parte. Ou de velhice mesmo! Vai saber! Só sei que logo, pelo menos tentarei me afastar. Será algo doído. Sofrido mesmo! Mas será melhor. Não para nós dois, mas pelo menos para minha pessoa e saúde!
                        Sendo assim… Daqui uns tempos, não nos veremos mais (espero!!!), caro amigo Lu. E também nem terei mais intimidade para chamar-te assim, caro Lucky Srike! Nem tão caro… O Marlboro custa mais!

Postado em 26 de março de 2007, "Bom pra ti que é um cavalo", do site http://www.osarmenios.com.br

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

REMEMORAÇÕES

            

               Eduardo olhou da sala e viu seu avô sentado sozinho na velha mesa da varanda. A mesma mesa que anos atrás era ocupada por quase três dezenas de pessoas. Avô, avó, pai, mãe, tias, tios, primas, primos, netos. Sempre aparecia mais alguém. Um parente distante, um amigo, um funcionário mais chegado do velho João, que a todos acolhia da forma mais educada e simpática que jamais vi.

               O velho não nota sua presença. Está quase senil, com seus noventa e quatro anos. Alterna momentos de lucidez com silêncios intermináveis, gestos, olhares e palavras com todos aqueles que se foram. Os por conta própria e os que ele tratou de expulsar de sua vida. Ali relembra seus momentos mais felizes. De rico comerciante. Iniciou do zero, vendendo leite, queijo e ovos de porta em porta. Logo precisou contratar um rapazote para ajudá-lo nas entregas. Percebeu que diversificando seus produtos, venderia mais. Estava certo. Aliás, para negócios, esteve sempre certo. Ninguém sabe de um revés financeiro que tenha sofrido. Pena que isso só ocorria com os negócios...

               Hoje seu olhar triste e distante, nada mais transmite. Ficou a casa. Enorme. Uma quadra inteira encravada no bairro mais luxuoso e caro da cidade. Projetada para que todos, pai, mãe, filhos e netos vivessem juntos, irmanados. Para sempre. Ficou a fazenda. Ficaram as lojas, as maiores de todo o estado. Ficaram as centenas de imóveis de aluguel. Carros e as antiguidades que ele literalmente amava mais que
seus próprios filhos, também ficaram. Todo o resto se foi. O próprio velho adorava dizer, entre generosas doses de seu Royal Salute da garrafa azul de porcelana e baforadas de seu mata-ratos Kissme, sem filtro, vício adquirido ainda no tempo das vacas magras, nas festas e jantares que oferecia aos seus inúmeros amigos, que se vivesse mais cem anos, toda sua família não viveria bem, mas sim, na-ba-bes-ca-men-te! Ele adorava dizer essa palavra e bem assim, desse jeito, compassado, como se estivesse separando sílaba por sílaba, como se fosse um Waldir Amaral da vida.

               Foi depois da morte de Laís, sua esposa, foi que ele mudou, ficou transtornado. Nunca mais casou. Todos sabiam que tinha várias amantes. Fixas e eventuais. O trabalho era sua vida. Mudou o escritório para casa. Trabalhava ás vezes por dezenove, vinte horas. Seu olhar antes afável e doce foi se apagando. Em seu lugar surgiram pedaços de vidro. Opacos. Frios. Sem vida. Afastou-se de todos. Dividiu parte de sua fortuna. Hoje não resta mais ninguém. Somente suas rememorações e Eduardo, seu neto. 
                Brigou, ofendeu e mandou embora todos que lhe amavam. Os outros morreram. Só os vê hoje, em seus delírios e diálogos entremeados de causos sobre festas, viagens e amores. Todos ali estão. Sorrindo. Sua amada esposa, seus filhos queridos, os amigos mais antigos, seus irmãos, seus pais. E seu olhar se ilumina novamente. E ri. O mesmo sorriso que faz seu neto se emocionar e o abraçar apertado. Um dia bom. Iluminado. Feliz.








Lero. Plá!

- Onde tava Zé?
- Ali.
- Ali, onde?
- Ali, ajudando o Tunico com as lata!
- De novo, bocó? Não vê que ele tá de golpe, como sempre?
- Tá não! Ele é do bem! É meu mano!
- Que mano o quê, seu ingrato! Teu único mano é o Beto. E tu sabe onde ele tá, né fedelho?
- Sei sim.
- E onde tá?
- No xilindró, mãe, a casa dele caiu.
- E porque caiu, guri?
- Por causa dos golpe.
- Ah, os golpe. Que golpe?
- Os que o Tunico arranjava.
- Viu abobado? E eu não avisei?
- Ãham...
- Como é que é? Ãham?
- Avisou mãe. Avisou
- Isso é jeito de falar com tua mãe, pirralho?
- Não sô pirralho! Tenho quase 13!
- Nossa! É o quê então?
- Sô hômi.
- Ah... Hômi?
- Então te manda comprar a comida pra hoje, hominho!
- Fica debochando não. Sô hômi sim...
- Hômi de beicinho?  Hahahahaha!
- Não ri, mãe!
- Ah, agora sou sua mãe, é hômi?
- Desculpa mãe.
- Vem cá ranhento! Dá um beijo na mãe, pega o dinheiro dentro da lata da banha.
- Pra quê?
- Dia de Coca-Cola, esqueceu?
- É mesmo! Vou lá!
- E volta logo pra almoço, ou teu pai come todos os bife!!
- Volto sim! Tenho que pegar minha grana das lata com o Tunico! Berrou já dobrando a esquina, correndo, pé no chão, em disparada! Sorriso largo... Dalva tentou lhe avisar pra ir direto ao mercado, quando sua voz foi calada por uma rajada. Seca, Ensurdecedora. Rápida. E por um grito conhecido e desesperador. Suas pernas ficaram bambas, sua pressão baixou. Sentiu os olhos escurecendo. Caiu desacordada.