quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Um respeitável senhor?


     À primeira vista parecia um senhor respeitável, com seus sessenta e cinco anos, mas aparentando apenas uns sessenta e quatro anos e dez meses. Mas não era. Pensando bem, só parecia mesmo respeitável quando olhado de relance ou dando-lhe uma olhadela de soslaio. Somente assim.

     Até porque ao olhar mais acuradamente, se vê o principal motivo para não considerá-lo respeitável... O cabelo pintado de acaju! Sim! O indefectível, o inefável acaju! Para tentar explicar melhor, essa cor é um pouco parecida com o pelo do Garfield, ou do Pluto. Resumindo, é um laranja desbotado.

    Mas havia ainda outros indícios que demonstravam que ele não era um senhor respeitável. Tinha várias tatuagens de estrelinhas coloridas, bem parecidas com aquelas que garotinhas do prezinho fazem. Mais de vinte estrelinhas em cada braço. Uma de cada corzinha. Amarela, vermelha, azul, verde, laranja, rosa, fúcsia, marrom, pretinha, dourada, prata...

    Usava também uma pochete de couro. Sempre! Desde os anos 90. Em volta da sua cintura e sempre por cima da camiseta, para chamar um pouco mais de atenção.  O uso de uma capanga ficaria menos ridículo.

    Também possuía uma coleção de camisetas de super-heróis. Sete, na verdade. Uma para cada dia da semana. Em realidade, de super-heróis, eram “apenas” seis. Três da Marvel: Capitão América, Homem-Aranha e Wolverine. Da DC tinha uma do Batman, Arqueiro Verde e a mais ridícula de todas, uma camiseta igual ao uniforme do Robin. Logicamente que ele não poderia trair seus valores e ter uma camiseta a mais de qualquer uma das maiores editoras de HQ’s “heroísticas”, como ele sempre falava.

     Então a solução encontrada para tal impasse, foi comprar a camiseta domingueira com a imagem do Manda-Chuva, que combinava com a cor do cabelo.

      Além disso, usava só dois tipos de calçados. Uma papete, que não deixa de ser a mistura de uma “chinela de dedo” com uma sandália antiga, tipo São Francisco, só que de plástico. Ou um crock. Qualquer um dos dois é algo triste de se ver... E qual a cor das duas? Laranja? O motivo? Nem preciso mais comentar, você leitor perspicaz, já sabe...

        E para finalizar o quadro da dor com a moldura do desespero, no inverno usava toca de pompom.  E no verão, lenços amarrados na cabeça, sempre de caveirinhas, de vampiro da Saga Crepúsculo, de ideogramas do alfabeto kanji que ele não fazia mínima ideia do que significavam (não que eu faça) e o mais lamentável de todos, um lencinho com smileys. Sim, isso mesmo!

        Difícil não vê-lo na rua e achá-lo um tanto quanto bizarro. Mas por outro lado, ele tinha um estilo todo dele. Próprio. O que, convenhamos nos dias de hoje, é algo salutar, em um tempo de patricinhas, mauricinhos e quadriculados de franja, todos iguais como se tivessem saído de uma linha de produção de uma fabriqueta de roupas chinesas.

       Não era sua vestimenta, digamos peculiar, que não o tornava um senhor respeitável. Não mesmo. Era algo mais lamentável que tudo que já foi elencado anteriormente. Sim. Acredite! Só piora!
     Todos os dias da semana, ele ficava espreitando lojas de lingeries. Parece que além de admirar calcinhas, soutiens, cintas-ligas, espartilhos, short dolls, camisetes, corselets, camisolas, anáguas e baby dolls, ele almejava, apesar da idade, as menininhas e garotas que freqüentavam tais lojas.  

      Sua abordagem era sempre a mesma, usava sempre o mesmo “modus operandi”. Avistava-a, estudava-a sorrateiramente e após certificar-se que entraria na loja, ia em direção da “vítima” com andar natural e jeitão distraído; e batia com seu pulso esquerdo, o do relógio, no relógio do “broto”. O estrondo quase sempre era alto. Parava de inopino. Olhar de surpresa e comiseração para a menina em sua frente. O pedido de desculpas. Um misto de educação e candura. E seguia seu caminho.

        Aquilo despertava nas meninas um sentimento de piedade, de compaixão e um pensamento do tipo: “Pobrezinho! Ficou tão sem jeito o tiozinho! Tão educado! Querido! Realmente um senhor respeitável! Óóóóiinn”!

        Após um bom tempo, afinal a menina além de fazer suas comprinhas, teve que olhar toda a loja, ver todas as araras, todas as prateleiras, todos os balcões. O que é algo mais que natural. Pois bem, após esse tempo, ela sai da loja distraída e feliz com suas aquisições, e encontra-se novamente com o “senhor respeitável”, que sem a menor cerimônia, para em sua frente, puxa do bolso de sua calça um papelzinho surrado, amassado, amarelado pelo tempo e lhe entrega com um número de celular e seu nome.
         
      A menina estupefata só consegue pensar: “Véio tarado fia da puta”!!!!


*Esse conto foi livremente baseado no caso real de uma grande amiga minha, que a postou em sua página no facebook. Valeu pela inspiração, Carol Pinup! Pácábá!

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