sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

QUASE UMA ODE AO RIVAL...



     Chega em casa tarde. Atrasado. Seu último paciente demorou mais do que ele imaginava. O carro na oficina. Esperando a maldita peça de São Paulo. Caminhou quase dez quadras. Sapato apertado. Imaginava que hoje finalmente voltaria dirigindo confortavelmente ouvindo o "Come Around Sundown". Invés disso, caminhada com uma garoa intermitente. Chega em casa encharcado. Os pés latejando. Gira a chave. Tira os sapatos. Alívio. Acende a luz. 

     Adalberto como sempre está sentado no sofá. Olhos vermelhos. Cara amassada de sono. Lhe olha de soslaio. Desce, já pulando em um salto no seu colo. A lambida vai da testa até o queixo, passando pelos olhos e boca. Sente fome e quer comer rapidamente. Sua ração já era, água de sobra, como sempre. Onde estava com a cabeça quando resgatou esse São Bernardo de dentro do contâiner de lixo seco? Ele mesmo sabia a resposta. O erro dele foi olhar para aquela cara impagável, o já famoso "olhar pidão". 

     Ao mesmo tempo que passa a mão no rosto, vai andando e tirando a camisa branca. Joga no cesto de roupa suja. Volta, liga a televisão. Tocando o Hino Nacional. Times perfilados. Pensa um pouco e desliga, afinal nem adianta secar. No outro time tem o hermano. Cabelo de garnisé, corpo de grilo e futebol de gente grande. Provocador. Insinuante. Passes milimétricos, dribles desconcertantes e chutes precisos. Parece que vai embora. Chinesada cheia da grana. Novo Eldorado do futebol mundial. Torcida pede em coro que ele fique. Já viu esse filme várias vezes, inclusive do seu lado, o lado azul. Sabe que não adianta nada. Muita emoção, muita gritaria, muito choro, pouca ação. Torcida não paga jogador. Por melhor que ele seja e esse é o caso do gringo. Sem perceber, volta seus olhos para o alto e faz um pedido silencioso: "Que vá de uma vez e não volte mais"!

     Desiste quando sai o primeiro gol deles. Passe de quem? Dele, D'Ale. Desgraçado! Joga muito! Larguei!              Termina o banho quente. Agora sim, relaxado. Mas não aguenta e dá mais uma olhada. Quinze do segundo, ainda 1 X 0. É pouco, pensa... Desliga a tevê para não dar azar. Come um sanduíche de atum, tomate, queijo cheddar, alface crespa e cenoura picada. Um suco de uva, natural, para acompanhar. Arruma a cama do graúdo, que está sentado em frente ao box do banheiro, acompanhando com com os olhos os movimentos do dono. 

     Arrisca dar uma ligada no rádio em cima do criado-mudo, já que não ouviu nenhum barulho. Nem foguete, nem buzina. Muito menos algazarra. Terminou como estava antes. Placar magrinho. Esboça um sorriso de canto de boca. Apaga a luz. Vai dormir tranquilo. Seu algoz está indo embora, para bem longe se Deus quiser. Antes de finalmente fechar os olhos pensa: "É... apesar de tudo um foi um bom dia. Muito bom".

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