sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

PERFEITO ESPIRAL

     Sentado, pernas cruzadas, fumando avidamente. Havia parado por seis meses, mas o vício foi mais forte. Voltou com tudo. Agora reiniciou seu processo de "cura". Espera o café. Forte como ele gosta. O olor penetra suas narinas. Bom. É o primeiro sentido que sempre lhe desperta o desejo de sorvê-lo calma, lenta e tranquilamente.

     Balança o pequeno sachê com açúcar. Coloca na xícara, mexe com cuidado e esmero.  O primeiro gole é como um bálsamo para alma. Reconfortante. Apaga a bagana do cigarro. Um miligrama de alcatrão. Dizem ser mais fraco. Será? O cheiro que fica em seus dedos e mãos sempre parece o mesmo. Toma outro gole, agora mais generoso. Uma espiral de fumaça acinzentada e renitente chega aos seu nariz. Perfeita, uma espiral circular, etérea, que se elevava devagar e sumia no ar de um  modo brando, esvanecendo até sumir sem deixar rastros... Esmaga novamente a guimba em movimentos rápidos e repetitivos. Olha para a mão e vê a marca branca da aliança que antes estava ali. Consegue apagar. Cruza as pernas e chacoalha o pé esquerdo repousado sobre o direito nervosamente.

     Ideias borbulham em sua cabeça, passam céleres, vão e voltam. Observa os outros frequentadores do Café. Mulheres em sua maioria. Quatro. Cada uma com sua beleza singular e seus atributos. Suas bolsas, conversas, baforadas, risadas, mensagens e celulares, olhares às vezes lânguidos, às vezes discretos, noutras blasé.

     Seus olhos agora visualizam a rua, o movimento dos carros, dos transeuntes apressados na calçada, na parada de ônibus. Cansados. Lojas sendo fechadas. Portas pantográficas barulhentas sendo baixadas, luminosos de neon sendo acesos.  Pessoas carregadas com sacolas, mochilas, pastas e bolsas. Cada uma vivendo se próprio mundo, sua própria história. Apressados. Exaustos. Bocejantes. Distraídos. Nenhum parece notar a beleza  que se descortina no horizonte com o pôr do sol que transforma  o céu em um aquarela multi-colorida. Luminosa. Roxo, amarelo, azul, laranja, vermelho...

     Um barulho forte de uma freada quase em cima da faixa de segurança, o desperta de seu frenesi urbano.  Levanta, arruma sua camisa, pega a carteira de cigarros, os óculos, seu celular, paga pelo café e vai para a rua, viver também sua história.

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