O suor molhava sua fronte, descia contornando seu nariz levemente aquilino, passando sobre suas pintinhas que lhe conferiam um ar ainda mais juvenil, apesar dos seus vinte e cinco anos, recém completos.
Quando as gotículas de suor tocavam seu lábio superior, fazendo cócegas, ela invariavelmente passava a língua por toda a extensão da boca, sorvendo a substância de sabor ocre. Sempre gostou de fazer isso.
Andava apressadamente por entre os carros que se deslocavam vagarosamente pela avenida central. Não prestava atenção no semáforo nem nos silvos agudos do apito do agente de trânsito que, com gestos ritmados, compassados, parecia um diretor de bateria de escola de samba, comandando o fluxo dos automóveis em frente a escola.
Somente um pensamento lhe passava pela cabeça há vários dias...
-Maldita abstinência! Maldita abstinência!
A falta que ela sentia era enorme. Desesperadora. Lhe comprimia o peito, lhe coçava os olhos, lhe secava a garganta, lhe ardia as entranhas...
Só pensava na falta. Na falta! Maldita abstinência! Maldita abstinência!
Sua cabeça parecia prestes a explodir. Não aguentava mais. Chegava a doer. Suava cada vez mais. Um desespero tomava conta de si, além disso o corpo doía. Nuca, peito, estômago.
Quanto mais pensava nos dias sem, mais perturbada ficava. Dependência física mesmo!
Agora correndo pela calçada, se desviando das pessoas, dos cães, chorava.
-Quinze dias! Quinze! Eu preciso! Preciso muito!
A cabeça pesa. As pernas pesam. Parece que está correndo há horas. Só pensa em chegar. Sabe que falta pouco.
-Hoje isso acaba! Não aguento mais! É muita tortura! Preciso muito! Muito!
Agora suas lágrimas, cada vez mais abundantes se misturavam com o suor. A abstinência é foda. Chega a doer. Ela não aguenta mais. Seus pensamentos se embaralham. Agora ela falava em voz alta consigo mesmo. Os transeuntes olham para ela de um modo sarcástico, parecendo saber o que ela estava prestes a fazer.
-É, vou fazer mesmo! A vida é minha! Você tem alguma coisa a ver com ela? Paga minhas contas, tio? E a senhora, o que está olhando? Vaza! Chispa! Sai fora! Vai! Vai!
Finalmente chega. Esbaforida. Além da dor causada pela abstinência, a corrida desembestada, a fez acumular ácido láctico nos músculos. Aquela dor lancinante, logo abaixo das costelas, do lado direito. Forte. Nem olha para os lados. Segue reto. Ele está ali, parado, com um pacote nas mãos. Quase volta a chorar, mas agora de alegria.
Chega até sua frente, ele lhe entrega o pacote. Ela pega. Sôfrega, ávida e fala com voz embargada...
- Jofre! Nunca mais faz isso! Meu amor! Te adoro! Seu bocó! Você lembrou do cd do Zeca Baleiro que te pedi!
Se beijaram apaixonadamente. Jofre pega a sua mala em frente ao ônibus que seguiria viagem. O motorista tem pressa, todos passageiros já embarcaram.
De mãos dadas, pegam um táxi. Felizes.
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É... O amor também vicia. E sua falta, dói.
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