O sino da igreja acabara de
tocar. Exatas dezesseis horas. Tudo havia sido orquestrado de um modo
impressionante, silencioso e aparentemente abrupto pelo bando. Lá estavam os cinco. Acompanhados
por uma turba gigantesca de desocupados, sofridos, banguelas e famintos. Todos,
tal qual uma milícia bem treinada. Armados até os dentes. “A Gangue do Aborígene Empalador”. Tal qual um exército, uma tropa beligerante. Com
seus cinco comandantes. Em formação de ataque. Amedrontadores.
Birosca era o líder. Centrado.
Experiente. O sangue que corria por suas veias era gélido. Comandava com mão de
ferro.
Chernobil era de todos, o mais
demente, irascível e descontrolado. Uma bomba-relógio prestes a detonar, podendo
levar tudo a seu redor pelos ares a qualquer momento.
Cueta apesar da alcunha um tanto
burlesca e depreciativa era a eminência parda do bando. O mais capacitado. O
mais preparado. O mais inteligente. Era aquele que embaralhava, distribuía e
ainda comprava as cartas. Mentor intelectual de toda a bandalheira. Possuía
contatos tanto com o submundo como com os donos do poder. Só não era o líder de
fato pois sabia que não possuía o dom de
liderar.
Gargamel era o típico “pau para
toda obra”. Piloto, mecânico, responsável pelo arsenal do grupo e pelas
finanças. Volta e meia fazia à vezes de eletricista. Autodidata, Aprendeu tudo
fuçando e vendo seu velho pai, famoso bandido de outrora, João Sem Braço.
Bisteca era... Bem, Bisteca era Bisteca.
Simples assim. Alguém com tal apelido, não poderia nunca ser importante em
qualquer tipo de grupo social. Fosse um grupo de escoteiros, de enxadristas, de
CLJ, de terceira-idade, de pagode ou mesmo uma sociedade beneficente ou uma
quadrilha, que era o caso.
Ainda mais em se tratando de uma
quadrilha respeitada e de nome tão pomposo. Resumindo, Bisteca era um néscio,
um bronco. Mas era de confiança e irmão mais novo do Birosca. Todos fingiam que
ele era vital para a logística e funcionamento do bando e ele acreditava
piamente nisso. E isso bastava.
Inicialmente, o bando era tratado
pelos senhores do poder e pela nata de Capim Canela, como uma trupe circense
que auxiliava a deixar os bandalhos, a ralé dos guetos em seu devido lugar, ou
seja, na periferia, longe de seus olhares, sem sujar suas ruas arborizadas, sua
praça tão bem conservada, suas lojas de grifes, café e restaurantes, freqüentados
pelas “Pessoas de bem”.
Acontece que os poderosos, esqueceram-se
de algo fundamental. Que a miséria, a fome, o desprezo, o preconceito e descaso,
machucam, calam fundo, revolta e dói. Muito.
E, além disso, esqueceram-se
também que qualquer um que demonstre o mínimo de interesse, de respeito para
com esse povo desvalido, ganha sua confiança, respeito e gratidão eterna. E
depois disso, fica fácil mostrar quem é o verdadeiro “inimigo”.
Aqueles que só
lembram da rafuagem há cada quatro anos, quando lhes oferecem uma sacola
econômica, um dinheirinho para cachaça, para pagar a luz e água, uma bola e uma
boneca para os ranhentinhos desdentados e cheio de vermes que correm pelas
ruelas de chão batido.
Por mais que não pareça, quatro
anos é muito tempo. Tempo suficiente até para surgir um poder paralelo, forte,
coeso, indestrutível.
E enquanto a high society vivia
seu mundo de fantasia e ostentação, julgando estar à salvo e imaginando que os
excluídos se dizimariam entre si. Ledo e fatal engano. A dor ensina a gemer e ensina
também como se tornar mais forte, deixando de sentir receio, medo do que
oprime, do que fere, do que humilha.
Destarte, o circo estava armado.
Mas não mais um circo na verdadeira acepção da palavra. Não um circo lúdico, um
lugar de alegria, de gargalhadas, de palhaços esfarrapados, de mulher barbada e
picadeiro. Definitivamente não. Surgia um circo dos horrores, com criaturas
perversas, entes malignos, sedentos por vingança, com atiradores de facas
sanguinários e bestas-feras, dispostos a tudo.
O ataque foi devastador. Os
soldadinhos, pobres-diabos que tentaram fazer um cordão de isolamento em frente
ao salão da paróquia, onde se encontravam toda a “nata” entrincheirada, foram
os primeiros a tombar, frente às rajadas certeiras. A segunda linha de defesa era
composta por incautos funcionários e assalariados dos ricaços, sem ter a mínima
ideia do que fazer, foi derrubada como jacas podres. Atingidos por tiros, pontaços
de facão e adagas, foiçadas e machadadas. Não sobrou vivalma. Esses, as buchas de canhão, os
bois de piranha, que foram deixados para fora, para que defendessem seus patrões,
todos foram mortos.
Iniciou-se a invasão do salão, onde estavam, os até pouco
tempo, donos da cidade, aquartelados e apavorados. A porta de ferro, que estava trancada
por dentro, protegida por cadeiras, mesas e bancos resistiu pouco tempo. Logo
veio abaixo. Os revoltosos, tais como títeres humanos, projetavam-se contra ela,
não se importando com a dor, sangue ou ossos partidos. Só interessava derrubar
a barreira que os separava de seus algozes. De seus detratores, de seus
inimigos mortais.
A última cidadela transposta.
Como um símbolo, um marco da opressão que os assolou por toda uma vida. No
chão. Destruída. Invadiram aos berros. Gritos de
guerra. Gritos de felicidade. Gritos de raiva. De dor e de vendetta. De
orgulho.
Seus vituperadores ali, caídos.
Muitos mortos. Outros feridos, sangrando. Choro e ranger de dentes,
literalmente. Pouquíssimos com uma nesga de
brio e vergonha na cara tentaram lutar, ou ao menos se defender. Esses tiveram
uma morte quase indolor. Mas aqueles que se postaram em
posição de genuflexo, soluçando como garotinhas e implorando por indulgência,
foram assassinados com requintes de crueldade.
Restaram as mulheres e crianças.
A turba enfurecida urrava exigindo que fossem violentadas e sacrificadas. Muitos começaram á cercá-las. A
ameaça era iminente. Quando se ouve um estrondo. Fortíssimo. Era Chernobil, com
uma rajada ensurdecedora de sua submetralhadora Colt 635. De imediato abriu-se
um clarão em torno, das agora, prisioneiras.
Birosca bradou com voz de trovão:
- Parem imediatamente! Agora! Já
cometemos atrocidades demais por hoje! Agimos igual a eles! Chega! Nas crianças
e mulheres, ninguém toca! Elas vão sair e ninguém rela! Ninguém! Entendido?
Entendido?
Ninguém retrucou. Um silêncio sepulcral
envolveu todo o salão. Gargamel e Cueta puxaram as duas mulheres que estava a
frente e as levaram até Bisteca, que as esperava na porta. Todas as outras
seguiram. Choravam e soluçavam. Quando todas se reuniram em frente aos corpos
inertes dos soldadinhos, ouviram a ordem...
-Sumam daqui! Não olhem para trás
ou morrem! Vão! Em questão de poucos minutos, não
havia uma para contar a história.
Para acalmar o povo que já demonstrava sinais
de impaciência sobre a liberação dos infantes e mulheres, Birosca em cima de
uma mesa, usada como se fosse um púlpito, falou, agora pausada e calmamente:
- Não sobrou nenhum. Aqueles que
nos humilharam, que nos subjugaram, estão mortos. Os outros, seus filho, os que carregam em
seus genes a maldade destes, foram escorraçados, assim como suas mulheres. Acabou! Peguem o que puderem.
Qualquer coisa. Não deixem nada... Dinheiro. Roupas. Comida. Tudo! Tudo!
Depois é cada um por si. Cada um
faz sua história daqui para frente.
Que Deus tenha pena de nós...
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