sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

TORRIDEZ - parte 2.


     O sino da igreja acabara de tocar. Exatas dezesseis horas. Tudo havia sido orquestrado de um modo impressionante, silencioso e aparentemente abrupto pelo bando. Lá estavam os cinco. Acompanhados por uma turba gigantesca de desocupados, sofridos, banguelas e famintos. Todos, tal qual uma milícia bem treinada. Armados até os dentes. “A Gangue do Aborígene Empalador”.  Tal qual um exército, uma tropa beligerante. Com seus cinco comandantes. Em formação de ataque. Amedrontadores.

      Birosca era o líder. Centrado. Experiente. O sangue que corria por suas veias era gélido. Comandava com mão de ferro. 

    Chernobil era de todos, o mais demente, irascível e descontrolado. Uma bomba-relógio prestes a detonar, podendo levar tudo a seu redor pelos ares a qualquer momento. 

     Cueta apesar da alcunha um tanto burlesca e depreciativa era a eminência parda do bando. O mais capacitado. O mais preparado. O mais inteligente. Era aquele que embaralhava, distribuía e ainda comprava as cartas. Mentor intelectual de toda a bandalheira. Possuía contatos tanto com o submundo como com os donos do poder. Só não era o líder de fato pois sabia que não  possuía o dom de liderar. 

     Gargamel era o típico “pau para toda obra”. Piloto, mecânico, responsável pelo arsenal do grupo e pelas finanças. Volta e meia fazia à vezes de eletricista. Autodidata, Aprendeu tudo fuçando e vendo seu velho pai, famoso bandido de outrora, João Sem Braço. 

     Bisteca era... Bem, Bisteca era Bisteca. Simples assim. Alguém com tal apelido, não poderia nunca ser importante em qualquer tipo de grupo social. Fosse um grupo de escoteiros, de enxadristas, de CLJ, de terceira-idade, de pagode ou mesmo uma sociedade beneficente ou uma quadrilha, que era o caso.

     Ainda mais em se tratando de uma quadrilha respeitada e de nome tão pomposo. Resumindo, Bisteca era um néscio, um bronco. Mas era de confiança e irmão mais novo do Birosca. Todos fingiam que ele era vital para a logística e funcionamento do bando e ele acreditava piamente nisso. E isso bastava.

     Inicialmente, o bando era tratado pelos senhores do poder e pela nata de Capim Canela, como uma trupe circense que auxiliava a deixar os bandalhos, a ralé dos guetos em seu devido lugar, ou seja, na periferia, longe de seus olhares, sem sujar suas ruas arborizadas, sua praça tão bem conservada, suas lojas de grifes, café e restaurantes, freqüentados pelas “Pessoas de bem”.

     Acontece que os poderosos, esqueceram-se de algo fundamental. Que a miséria, a fome, o desprezo, o preconceito e descaso, machucam, calam fundo, revolta e dói. Muito.

     E, além disso, esqueceram-se também que qualquer um que demonstre o mínimo de interesse, de respeito para com esse povo desvalido, ganha sua confiança, respeito e gratidão eterna. E depois disso, fica fácil mostrar quem é o verdadeiro “inimigo”. 

    Aqueles que só lembram da rafuagem há cada quatro anos, quando lhes oferecem uma sacola econômica, um dinheirinho para cachaça, para pagar a luz e água, uma bola e uma boneca para os ranhentinhos desdentados e cheio de vermes que correm pelas ruelas de chão batido.

    Por mais que não pareça, quatro anos é muito tempo. Tempo suficiente até para surgir um poder paralelo, forte, coeso, indestrutível.

     E enquanto a high society vivia seu mundo de fantasia e ostentação, julgando estar à salvo e imaginando que os excluídos se dizimariam entre si. Ledo e fatal engano. A dor ensina a gemer e ensina também como se tornar mais forte, deixando de sentir receio, medo do que oprime, do que fere, do que humilha.

     Destarte, o circo estava armado. Mas não mais um circo na verdadeira acepção da palavra. Não um circo lúdico, um lugar de alegria, de gargalhadas, de palhaços esfarrapados, de mulher barbada e picadeiro. Definitivamente não. Surgia um circo dos horrores, com criaturas perversas, entes malignos, sedentos por vingança, com atiradores de facas sanguinários e bestas-feras, dispostos a tudo.

     O ataque foi devastador. Os soldadinhos, pobres-diabos que tentaram fazer um cordão de isolamento em frente ao salão da paróquia, onde se encontravam toda a “nata” entrincheirada, foram os primeiros a tombar, frente às rajadas certeiras. A segunda linha de defesa era composta por incautos funcionários e assalariados dos ricaços, sem ter a mínima ideia do que fazer, foi derrubada como jacas podres. Atingidos por tiros, pontaços de facão e adagas, foiçadas e machadadas. Não sobrou vivalma. Esses, as buchas de canhão, os bois de piranha, que foram deixados para fora, para que defendessem seus patrões, todos foram mortos. 

     Iniciou-se a invasão do salão, onde estavam, os até pouco tempo, donos da cidade, aquartelados e apavorados. A porta de ferro, que estava trancada por dentro, protegida por cadeiras, mesas e bancos resistiu pouco tempo. Logo veio abaixo. Os revoltosos, tais como títeres humanos, projetavam-se contra ela, não se importando com a dor, sangue ou ossos partidos. Só interessava derrubar a barreira que os separava de seus algozes. De seus detratores, de seus inimigos mortais.

     A última cidadela transposta. Como um símbolo, um marco da opressão que os assolou por toda uma vida. No chão. Destruída. Invadiram aos berros. Gritos de guerra. Gritos de felicidade. Gritos de raiva. De dor e de vendetta. De orgulho.

     Seus vituperadores ali, caídos. Muitos mortos. Outros feridos, sangrando. Choro e ranger de dentes, literalmente. Pouquíssimos com uma nesga de brio e vergonha na cara tentaram lutar, ou ao menos se defender. Esses tiveram uma morte quase indolor. Mas aqueles que se postaram em posição de genuflexo, soluçando como garotinhas e implorando por indulgência, foram assassinados com requintes de crueldade.

     Restaram as mulheres e crianças. A turba enfurecida urrava exigindo que fossem violentadas e  sacrificadas. Muitos começaram á cercá-las. A ameaça era iminente. Quando se ouve um estrondo. Fortíssimo. Era Chernobil, com uma rajada ensurdecedora de sua submetralhadora Colt 635. De imediato abriu-se um clarão em torno, das agora, prisioneiras.

     Birosca bradou com voz de trovão:
- Parem imediatamente! Agora! Já cometemos atrocidades demais por hoje! Agimos igual a eles! Chega! Nas crianças e mulheres, ninguém toca! Elas vão sair e ninguém rela! Ninguém! Entendido? Entendido?

     Ninguém retrucou. Um silêncio sepulcral envolveu todo o salão. Gargamel e Cueta puxaram as duas mulheres que estava a frente e as levaram até Bisteca, que as esperava na porta. Todas as outras seguiram. Choravam e soluçavam. Quando todas se reuniram em frente aos corpos inertes dos soldadinhos, ouviram a ordem...
-Sumam daqui! Não olhem para trás ou morrem! Vão! Em questão de poucos minutos, não havia uma para contar a história. 

     Para acalmar o povo que já demonstrava sinais de impaciência sobre a liberação dos infantes e mulheres, Birosca em cima de uma mesa, usada como se fosse um púlpito, falou, agora pausada e calmamente:
- Não sobrou nenhum. Aqueles que nos humilharam, que nos subjugaram, estão mortos. Os outros, seus filho, os que carregam em seus genes a maldade destes, foram escorraçados, assim como suas mulheres. Acabou! Peguem o que puderem. Qualquer coisa. Não deixem nada... Dinheiro. Roupas. Comida. Tudo! Tudo!

     Depois é cada um por si. Cada um faz sua história daqui para frente.

     Que Deus tenha pena de nós...

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