terça-feira, 10 de janeiro de 2012

REMEMORAÇÕES

            

               Eduardo olhou da sala e viu seu avô sentado sozinho na velha mesa da varanda. A mesma mesa que anos atrás era ocupada por quase três dezenas de pessoas. Avô, avó, pai, mãe, tias, tios, primas, primos, netos. Sempre aparecia mais alguém. Um parente distante, um amigo, um funcionário mais chegado do velho João, que a todos acolhia da forma mais educada e simpática que jamais vi.

               O velho não nota sua presença. Está quase senil, com seus noventa e quatro anos. Alterna momentos de lucidez com silêncios intermináveis, gestos, olhares e palavras com todos aqueles que se foram. Os por conta própria e os que ele tratou de expulsar de sua vida. Ali relembra seus momentos mais felizes. De rico comerciante. Iniciou do zero, vendendo leite, queijo e ovos de porta em porta. Logo precisou contratar um rapazote para ajudá-lo nas entregas. Percebeu que diversificando seus produtos, venderia mais. Estava certo. Aliás, para negócios, esteve sempre certo. Ninguém sabe de um revés financeiro que tenha sofrido. Pena que isso só ocorria com os negócios...

               Hoje seu olhar triste e distante, nada mais transmite. Ficou a casa. Enorme. Uma quadra inteira encravada no bairro mais luxuoso e caro da cidade. Projetada para que todos, pai, mãe, filhos e netos vivessem juntos, irmanados. Para sempre. Ficou a fazenda. Ficaram as lojas, as maiores de todo o estado. Ficaram as centenas de imóveis de aluguel. Carros e as antiguidades que ele literalmente amava mais que
seus próprios filhos, também ficaram. Todo o resto se foi. O próprio velho adorava dizer, entre generosas doses de seu Royal Salute da garrafa azul de porcelana e baforadas de seu mata-ratos Kissme, sem filtro, vício adquirido ainda no tempo das vacas magras, nas festas e jantares que oferecia aos seus inúmeros amigos, que se vivesse mais cem anos, toda sua família não viveria bem, mas sim, na-ba-bes-ca-men-te! Ele adorava dizer essa palavra e bem assim, desse jeito, compassado, como se estivesse separando sílaba por sílaba, como se fosse um Waldir Amaral da vida.

               Foi depois da morte de Laís, sua esposa, foi que ele mudou, ficou transtornado. Nunca mais casou. Todos sabiam que tinha várias amantes. Fixas e eventuais. O trabalho era sua vida. Mudou o escritório para casa. Trabalhava ás vezes por dezenove, vinte horas. Seu olhar antes afável e doce foi se apagando. Em seu lugar surgiram pedaços de vidro. Opacos. Frios. Sem vida. Afastou-se de todos. Dividiu parte de sua fortuna. Hoje não resta mais ninguém. Somente suas rememorações e Eduardo, seu neto. 
                Brigou, ofendeu e mandou embora todos que lhe amavam. Os outros morreram. Só os vê hoje, em seus delírios e diálogos entremeados de causos sobre festas, viagens e amores. Todos ali estão. Sorrindo. Sua amada esposa, seus filhos queridos, os amigos mais antigos, seus irmãos, seus pais. E seu olhar se ilumina novamente. E ri. O mesmo sorriso que faz seu neto se emocionar e o abraçar apertado. Um dia bom. Iluminado. Feliz.








2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Incrível, o texto com algumas diferenças de caso se materializa em um senhor que conheci, poderia inclusive ter no rodapé: Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.
    Que os Eduardos, tenham o dom de conversar e ouvir o velhos João, isso faz toda diferença para ambos.

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